Capítulo 24

Budapest, march 20, 2016

Mais um capítulo se inicia, e dessa vez nesse lugar maravilhoso e rodeada de pessoas maravilhosas!

Feliz ano novo pra mim!!! 🎉🎉🎉🎉🎉🎉

12832471_10205723864516221_768905118810980404_n

Anúncios

Reflexões de metade do intercâmbio: Você realmente sabe o que é e representa?

E lá se foram 6 meses.

24816931665_4d65abdc3e_o

Esse é o texto que eu mais queria escrever desde o meu primeiro mês aqui. (Detalhe, quando comecei essa frase comecei em inglês involuntariamente. Ótima evolução na língua até o momento… Quando mistura com húngaro então, fica uma coisa linda! Hahaha).

Você sabe o que é e representa no mundo? A ideia de ser um em sete bilhões é tão vaga, e se você não possuir um dom único, é representado por sua nação. Falando em nação, já pararam pra prestar atenção no hino do nosso país? “Terra adorada… Entre outras mil, és tu Brasil, Ó Pátria amada!” Mas como? Reclamamos de tudo, somos os piores do mundo, a grama do vizinho é sempre mais verde e blá blá blá…

Os europeus são bem mais fechados e à primeira vista rudes, pra nós brasileiros. Porém depois que você faz amizade o cenário muda muito. Muitas das vezes são até mais solícitos que brasileiros. Espanhóis e italianos são os que mais lembram a nossa cultura.
Europeus são mais práticos, diretos e pontuais. Já nós somos mais flexíveis. Ambos lados tem pontos positivos e negativos.
Não fazem tantos rodeios também. Se não querem dizem que não e se querem, sim. Nós em geral optamos pelo “talvez”, “não sei” ou o “vou pensar”.

Aqui se pode assoar o nariz em qualquer lugar. QUALQUER LUGAR mesmo! Na mesa de jantar, numa cerimônia solene na universidade ou numa sala de aula silenciosa (And I think that’s beautiful ❤). Aquele som alto não incomoda ninguém. Já por outro lado é rude ficar “fungando” o nariz, alguns ficam até bem irritados. Pra quem tem rinite alérgica como eu é simplesmente maravilhoso. Acho que o sentimento que tive quando descobri isso foi como o das mulheres da década de 70 nos EUA que queimaram sutiãs… Livre! Livre! Hahaha

Budapeste, capital da Hungria e uma das cidades mais visitadas do Leste Europeu, tanto por jovens que buscam conhecer a cidade e sua noite como por pessoas mais velhas que vêm apenas para aproveitar os “Sightseeings” e também os restaurantes e pubs maravilhosos. Nesses 6 meses tive a oportunidade de encontrar e conversar com pessoas dos mais variados cantos do mundo, e com o auxílio da universal língua inglesa conheci muitas histórias e sotaques diferentes. É fascinante!

Geralmente, essas conversas começam com um Oi, tudo bem, por que está por aqui, etc… Mas uma das primeiras perguntas, de lei, sempre é: “Where are you from?” . O melhor dessa pergunta, é que você já anseia que a pessoa pergunte um “And you?” para poder falar com aquele sorriso na cara: Brasil! E a reação é unânime ao ouvir essa palavra mágica; Sorrisos seguidos de “Woowwww Brazil!!!!!!!” e alguns comentários ou encenações depois. Uns cantam Ai se eu te pego, outros Gustavo Lima, muitos falam de Ronaldo, Ronaldinho e Neymar, e os mais informados perguntam sobre os atuais problemas políticos. E claro, todo mundo deseja passar um carnaval na nossa terra!

Aí é que se encontra o X da questão: Independente da conduta de nossos políticos, do amadorismo que comanda boa parte das coisas, temos o bem mais valioso do mundo: O povo. Sim, acho que somos os mais amados do mundo, e abaixo conto o porque de chegar a essa conclusão em tão pouco tempo.

Sinceramente, eu sei que ainda terei contato com muitas outras nacionalidades e com todo tipo de pessoa, mas já estou assimilando a mensagem deles: Somos o povo mais feliz, divertido, admirado em alguns pontos e sempre tentamos ver o lado positivo de tudo. Após perceber isso, é impossível não colocar um sorriso no rosto e ter o maior orgulho do mundo de falar que venho do Brasil.

Brasileiros no geral sofrem da “síndrome do patinho feio” em que tudo que é de fora é melhor. Nosso país é um continente que fala a mesma língua, com tanta riqueza cultural, belezas naturais e um povo acolhedor! 💚💛
Temos problemas? Claro! Contudo devemos lutar para melhorar (e justificar crise pra tudo não vale).

– Szia!

O alto preço de viver longe de casa

“Voar: a eterna inveja e frustração que o homem carrega no peito a cada vez que vê um pássaro no céu. Aprendemos a fazer um milhão de coisas, mas voar… Voar a vida não deixou. Talvez por saber que nós, humanos, aprendemos a pertencer demais aos lugares e às pessoas. E que, neste caso, poder voar nos causaria crises difíceis de suportar, entre a tentação de ir e a necessidade de ficar.

A vida de quem inventa de voar é paradoxal, todo dia. É o peito eternamente divido. É chorar porque queria estar lá, sem deixar de querer estar aqui. É ver o céu e o inferno na partida, o pesadelo e o sonho na permanência. É se orgulhar da escolha que te ofereceu mil tesouros e se odiar pela mesma escolha que te subtraiu outras mil pedras preciosas.

E começamos a viver um roteiro clássico: deitar na cama, pensar nos quilômetros de distância, pensar nas pessoas amadas, no que eles estão fazendo sem você, nos risos que você não riu, nos perrengues que você não estava lá para ajudar. É tentar, sem sucesso, conter um chorinho de canto e suspirar sabendo que é o único responsável pela própria escolha. No dia seguinte, ao acordar, já está tudo bem, a vida escolhida volta a fazer sentido. Mas você sabe que outras noites dessas virão.

Mas será que a gente aprende? A ficar doente sem colo, a sentir o cheiro da comida com os olhos, a transformar apartamentos vazios na nossa casa, transformar colegas em amigos, dores em resistência, saudades cortantes em faltas corriqueiras?

Será que a gente aprende? A ser filho de longe, a amar via Skype, a ver crianças crescerem por vídeos, a fingir que a mesa do bar pode ser substituída pelo grupo do WhatsApp, a ser amigo através de caracteres e não de abraços, a rir alto com HAHAHAHA, a engolir o choro e tocar em frente?

O preço é alto. A gente se questiona, a gente se culpa, a gente se angustia. Mas o destino, a vida e o peito às vezes pedem que a gente embarque. Alguns não vão. Mas nós, que fomos, viemos e iremos, não estamos livres do medo e de tantas fraquezas. Mas estamos para sempre livres do medo de nunca termos tentado.” – Ruth Manus

Aos amigos que viraram família e fizeram desse fim de ano inesquecível e aconchegante: O meu eterno obrigada.

Boldog Új Évet!!!

E finalmente… A primeira neve!

Ah…. como é gostosa a sensação de primeira vez! Como eu tava ansiosa pra ver essa bendita neve, tocar, rolar, fazer boneco, fazer anjinho e tudo o que eu tinha direito! E enfim, no dia 29 de novembro tudo isso aconteceu. E foi mil vezes melhor do que eu imaginava que seria.

Em Budapeste por enquanto só rolou uma nevinha de nada, nada demais. Mas, minha professora muito fofa de húngaro me indicou um lugar no interior da Hungria onde fica a Kékes, montanha mais alta do país, no condado de Heves e 1014 metros acima do mar! E é claro que eu tive que ir conferir! Acordei cedo em um sábado congelante feliz da vida e fui, sem saber ao certo o que estava me esperando lá… Nunca tinha ouvido falar nessa cidade.

DCIM101GOPROGOPR1607.

Quanto mais o ônibus ia subindo, mais neve eu via. Parecia uma criança, com o rosto grudado na janela, sem acreditar no que eu tava vendo! Essa sensação louca de que aquilo não é de verdade que demora a passar… e você fica em um constante êxtase.

22776175523_2a8844c7f8_o

De longe, posso dizer que foi o meu melhor dia aqui nesse país que eu já amo tanto, e que tem me proporcionado momentos inesquecíveis.

Por um minuto me vi comparando o sentimento que foi quando me deparei com essa linda imensidão branca a uma pessoa que vê o mar pela primeira vez, por exemplo. Me senti uma criança, experimentando o seu primeiro brinquedo.

23405524725_692098cfef_o

Apesar da saudade que eu já sinto do Brasil e da minha casinha, só o pensamento de ter que deixar a Hungria já me traz um aperto no peito. Mas logo o afasto e tento viver cada dia aqui como se fosse o último, e com certeza vou carregar pra sempre o peso de tantas memórias maravilhosas.

23323630901_2628eb8bed_o
Apresento-lhes o Jack, meu primeiro boneco de neve!

Frozen-GIFS2
Terminei o dia congelada, cansada e SUPER feliz!

giphy

23 de outubro na Hungria de 2015

Em outubro de 1956, os húngaros protagonizaram um dos mais importantes movimentos da História contra o comunismo. Cansada do regime autoritário, a população saiu às ruas para reivindicar menos stalinismo e mais democracia, estimulada pelo ataque do secretário-geral Nikita Kruchov ao governo de Stálin.

22428746912_7af3fe17e8_oA revolução propriamente dita teve inicio no dia 23 de Outubro de 1956, com uma manifestação pacífica de estudantes em Budapeste. Exigiam o fim da ocupação soviética e a implantação do “socialismo verdadeiro”. Tanques soviéticos foram apedrejados e símbolos como a estrela vermelha no prédio do Parlamento, em Budapeste, substituídos pela bandeira da Hungria. Em pouco tempo, as tropas húngaras aderiram. Quando os estudantes tentaram resgatar alguns colegas que haviam sido presos pela polícia política, esta abriu fogo contra a multidão.

No dia seguinte, oficiais e soldados juntaram-se aos estudantes nas ruas da capital. A estátua de Stálin foi derrubada por manifestantes que entoavam, “Russos, voltem para casa”, “Abaixo Gerő” e “Viva Nagy”.

No dia 25 de Outubro, tanques soviéticos dispararam contra manifestantes na Praça do Parlamento. Mais de 100 pessoas foram mortas! Chocado com tais acontecimentos, o comité central do partido forçou a renúncia de Gerő e substituiu-o por Imre Nagy.

A festa acabou quando Nagy anunciou seu desligamento do Pacto de Varsóvia, aliança militar comunista instituída um ano antes. Os tanques soviéticos cercaram Budapeste. Na madrugada de 5 de novembro, mil tanques, apoiados por artilharia, aviões e infantaria, entraram na capital, massacrando a população. Cerca de 8 mil pessoas morreram e 200 mil fugiram para o Ocidente. Nagy seria executado por traição dois anos depois.

IMAG7433

Em 1949, foi substituído o  tradicional Brasão da bandeira húngara por uma imagem do tipo estalinista, composta por uma espiga cruzada com martelo e uma estrela vermelha. A bandeira da revolução anti-soviética de 1956 foi a tricolor com um “rasgão” ao centro (não existindo outras bandeiras que não exibissem a imagem comunista ao centro, o recorte à tesoura levou ao aparecimento de bandeiras com um “buraco” ao centro, hoje símbolo da revolução).

Desde que o país voltou a ser independente da URSS, há 24 anos, o dia 23 de outubro foi decretado feriado nacional. Nem mesmo os mercados abrem, quase ninguém trabalha. As ruas se enchem de bandeiras nacionais e há festividades e manifestações durante o dia. Em 2006, quando um governo de esquerda estava no poder, houve fortes protestos na data por causa de declarações impopulares do presidente. Grupos nacionalistas e de direita ocasionaram fortes conflitos com a polícia e invasão de prédios públicos. Talvez por isso, recebi uma recomendação de uma professora de que era “melhor não sairmos de casa” (se ela quisesse me convencer a ir, não teria jeito melhor que esse).

Uma rápida pesquisa na internet e uma consulta aos amigos húngaros fornecem a programação do dia.

Em frente à Terror Háza (Casa do Terror), – pertinho da minha casa – que relembra o período da ocupação nazista e da ditadura soviética, centenas de húngaros acenderam velas para relembrar os mortos. A data era pra ser uma festividade, mas o luto estava presente lado a lado com o orgulho da Revolução que fracassou. Se por um lado o passado foi sombrio, o futuro tampouco parece animador para o povo húngaro.

21823596384_3bc368e158_o
Casa do Terror, na avenida Andrássy
21795712994_ab9354afbf_o
Velas em homenagem às vítimas

A House of Terror, ou Terror Háza, em húgaro, é um museu que conta a história do nazismo e comunismo na Hungria e a casa foi, literalmente, uma Casa do Terror, já que abrigava os nazistas húngaros e depois foi sede do comunismo húngaro. O museu é impressionante e conta toda a história da ocupação nazista e depois, dos soviéticos. E vou tentar contar um pouquinho sobre a minha inesquecível experiência visitando o local e vivenciando essa história.

Na entrada, tem um memorial com uma parede meio preta e meio cinza, com uma faixa caída no chão com as cores da Hungria dentro de uma espécie de coroa de espinhos como a de Cristo. E já toca uma música de muito impacto e tensão.

Logo ao entrar, você se depara com um tanque real exposto,  juntamente com fotos de milhares de vítimas. Impactante.

22403891022_de58eb4e94_o

Depois, sobe para o segundo andar. Lá tem uma série sem fim de vídeos reais feitos na época, que estão intactos colocados para exibição. Tem muito material em húngaro e em menor grau em russo. E muito pouca coisa traduzida para o inglês. Mas acho que nem precisa.

Tem 500 uniformes do exército húngaro, tem até um vídeo mostrando como eles se vestiam.

E aí ao fundo tem uma parede que causa muito impacto, pra mim em particular. O momento que a primeira ponte aqui da Hungria afundou depois do ataque nazista. Tá lá bem ampliada. Ocupa uma parede inteira. É impressionante. Fiquei sem acreditar. Penso que a imagem reflete o sentimento de todos os húngaros quando passaram por isso. Choca e dói na alma.

Há diversos relatos do período em que o regime totalitário estava instalado na Hungria. Eles deixaram várias televisões com vídeos de depoimentos de quem sobreviveu. Mas nitidamente é um depoimento da década de 40 ou 50. Também tem à mostra os telefones pretos húngaros usados na época, as máquinas de escrever que passavam mensagem em código morse, fones de ouvido que você pode pegar para ouvir mais depoimentos e até um carro usado por algum governador da época. Um carro preto gigantesco. Também tem filmagem das pessoas fazendo trabalho escravo, de campos de concentração e das pessoas trabalhando pelas ruas daqui. Tem vídeo de quando o nazismo assume o poder, e de um cara que foi abraçar Hittler, mas, foi impedido pelos soldados.

Aos poucos vai se misturando nazismo e socialismo. E tem 500 milhões de depoimentos das atrocidades que eles faziam. De coisas mais leves até coisas bem pesadas. Tem as armas que eles usavam, remontaram o gabinete de 2 comunistas lá dentro, tem livros com anotações diversas, uma biblioteca de algum governante húngaro com uns 40 livros de Stalin e 30 de Marx, entre outros.

Ah sim! Tem um vídeo do exato momento que o governante húngaro passa o poder para o governo socialista.

A coisa parece ficar melhor quando entro numa área dedicada a propaganda socialista e parece que vai tudo ficar mais light. Só que piora muito!

Depois da sala de propaganda tem uma sala dos padres. Aí tem o vídeo de um cardeal que assumiu a Hungria, dizendo que não queria fazer mal a ninguém e nem ter distinção de classe social porque a família dele também vinha da classe trabalhadora húngara. Num determinado momento a guarda ali da sala manda a gente sair e entrar num elevador. Eu achei que era porque estava fechando. Engano meu.

Esse elevador deve funcionar a 2 km/h, e na hora que ele se fecha, começa um depoimento de um velhinho relatando com todos os detalhes possíveis como era o procedimento de tortura até o enforcamento de um preso. Isso vai angustiando profundamente em especial porque quando você se dá conta, o elevador está descendo os corredores da prisão húngara onde aconteceram os relatos dele. Você começa a identificar que é o lugar, e que a única opção é descer.

Quando finalmente para, a gente está dentro da prisão. E eles não reformaram a prisão. Deixaram do jeito que foi encontrada. Lá tem uma sala com instrumentos de tortura, câmara de gás, prisões diversas com a foto de quem ficou preso em cada cela, sala de enforcamento com a corda e o tronco ali ainda expostos, sala de tortura para arrancar depoimento com detector de mentira e uma cela mil vezes pior que as outras em que só era possível colocar o corpo de pé porque nem se mexer dava.  Não tem como não ficar mal. Eu vi pessoas chorando, pessoas se afastando pra ir embora e muitas pessoas com a cara péssima.

22230236298_7cc9f9d2ce_o
Terror Háza

Pra piorar, um dos corredores da saída é um corredor enorme com a foto das vitimas, quando nasceu e se morreu, em um enorme paredão. Na próxima sala tem uma espécie de oratório com milhões de velas acessas e por fim uma sala com o levante húngaro da revolução e da resistência.

21818023574_1d3d3aeda9_o
“Cortina de Ferro” – Expressão usada para designar a divisão da Europa em duas partes, a Europa Oriental e a Europa Ocidental como áreas de influência político-econômica distintas, no pós-Segunda Guerra Mundial, conhecido como Guerra Fria.

Ao final de tudo, fiquei aliviada por sair do prédio e ver a luz do dia. Tentei me distrair fazendo uma caminhada pela Vörösmarty, tarefa um tanto difícil, em que falhei completamente.

Sobre versos, palavras e saudade

Como pode uma simples mensagem transformar e salvar um domingo cinza de 4°C?
Como pode essa saudade doer tanto?

“The answer, my friend, is blowin’ in the wind…..”

Oi Ju. Recebemos seus presentes, seu cartão. Saudades, saudades e saudades. Mas, é gratificante, porque é por uma grande causa, “Você”.

Neste instante, estou ouvindo Bob Dylan, um presentão, talvez eu não consiga te explicar, mas, coisas simples, desejos que quando menos espero, acontecem.

Simples. Como ouvir Dylan como faço agora. Quando eu o ouvi pela primeira vez, não me lembro quando, ouvi e gostei. Prendeu minha atenção, porque mesmo sem entender a letra, tive e tenho a sensação que ele canta conversando com quem o ouve. Mas o interessante, é que nunca comprei nenhum disco ou cd, mesmo gostando. Por que? Assim, mais um desejo se realiza através de você.

Só musicão, um som nítido, sua gaita complementa um som de cativar.
Obrigado por ter lembrado, posso entender agora porque não comprei. Ouvindo, te escrevendo e feliz pelo presente, mais um desejo realizado.
Beijos, com muito amor, fique com Deus.

Acabei de chegar em casa, e me senti muito importante recebendo encomenda de Budapeste, Berlim e Viena. Adorei meus presentes. Os ímãs de geladeira são uma graça, a loção é cheirosa e o hidratante uma delícia.

Mas, receber um cartão escrito por você eu gostei  por demais. Também te amo muito e me sinto viajando com você pelos seus relatos, mesmo não estando aí.
Fica com Deus, filha.

10524017_10202315742675305_8547643694232338024_n


Às duas pessoas mais importantes da minha vida…
Amo vocês. Demais.


Sapatos sobre a margem do Danúbio

Sempre que vou falar de Budapeste começo dizendo que essa é uma cidade que exala história por toda parte. Alguns países se deram mal na segunda guerra mundial, mas a Hungria se deu MUITO mal. A sua aliança com a Alemanha custou a morte de 40% de sua população, milhares de judeus foram mandados para campos de concentração e as belas e ricas cidades que compunham o país viraram destroços. Como se isso não fosse triste o suficiente, com o fim da guerra o mundo foi dividido e a Hungria passou para o domínio soviético causando mais um período negro de repressão, prisões, mortes e muito pânico. Sentiu um friozinho na barriga também? Então, em Budapeste há muitos monumentos, museus e homenagens pra essa gente que foi covardemente perseguida e morta por muitos anos, como por exemplo o memorial “Sapatos sobre a margem do Danúbio“.

21377349178_262e712090_o

O rio Danúbio corta a cidade e em um ponto de sua margem pode-se observar vários sapatos feitos em bronze rodeados de flores e velas. Os sapatos são feitos de bronze e seu donos nunca voltarão.

Trata-se de um memorial, em homenagem aos judeus húngaros executados pelo governo fascista durante a segunda guerra mundial. No outono de 1944, o partido húngaro fascista executou diversos judeus, entre eles crianças e mulheres, e também oponentes ao governo. Os judeus era alinhados na beira do Danúbio, baleados e seus corpos eram jogados no rio. Antes, removiam seus sapatos, já que este item eram valioso na época. Clicando aqui, é possível ter uma vista panorâmica do monumento.

22212151551_79049af6f8_o
Não é incomum encontrar homenagens, como flores dentro dos sapatos

Vale a pena a visita, a gente se sente mais humano, sabe? Se põe mais no lugar do outro, vê, sente e toca a história que a gente aprendeu no colégio e nota que ela é consegue ser ainda mais dura… Emocionante.

 

2 down, 10 to go!

Hoje, quando olhei no calendário, me dei conta que já fazem dois meses que me mudei para Budapeste, e se tem uma coisa que eu posso dizer é: Como passou rápido!!!

Agora posso dizer que aquela típica sensação de que tudo isso vai acabar em alguns dias, assim como aquela sensação de “férias” já está passando, e ficando no lugar algo que ainda não sei descrever – completamente. Como se o sentimento estivesse dentro de mim, embrulhadinho em um papel de presente e ainda com um cartão branco escrito “Seu maior sonho”.

Falando assim parece idiotice, mas abrir esse pacote não é tão simples quanto parece. Significa que de alguma forma (e para o meu bem), terei que me desfazer por completo de outros.  No começo tentei não pensar nisso. E principalmente, não escrever sobre isso. Uma maneira que encontrei de me defender dos meus próprios julgamentos – já que eles sempre surgem quando tento transformar o que sinto em textos. Mas quando se tem dificuldade de expor o que sente em palavras ditas, trancar a inspiração não é algo muito saudável. Talvez seja esse o preço que se paga.

Life_begins_at_the_end_of_your_comfort_zone

Pois bem, agora estou pronta pra falar – ou pelo menos tentar – escrever sobre isso.

Morar longe de onde nascemos e crescemos (e também de quem amamos) talvez seja um dos maiores desafios da vida. Daqueles que fazem a gente mudar completamente os valores. Ainda é a melhor e mais rápida maneira de amadurecer: Amar, esquecer e crescer.

De uma hora pra outra as coisas que você mais odiava se transformarão nas coisas que você mais sente falta. E as coisas que você sempre teve vontade de fazer, em menos de uma ou duas semanas (em alguns casos meses, vai…), se transformarão em rotina e perderão 80% da graça. Mas ainda assim vale a pena. Mudar é sempre um investimento; seja pra conquistar, encontrar ou compartilhar um sonho.

É quase sempre na solidão que conseguimos sentir nossa verdadeira alma e essência. Isso é meio louco. Porque em alguns momentos achamos que estamos pirando. Não ouvir aquela voz que acalma quando tudo está dando errado. Olhar pro lado e perceber que aquela multidão não passa de um bando de pessoas que não fazem ideia de quem é você.

No começo foi assim, me senti absolutamente sozinha. Chorei algumas vezes no chuveiro e desejei ter algum tipo de poder que tornaria possível trazer todas as pessoas que eu amo pra perto. (Ganhar na loteria também vale). Mas não dá pra cobrar isso da vida. Ela já tem sido tão gentil comigo ultimamente. Sinto até um aperto no peito quando fico triste por saudade. Metade por estar chorando. Outra metade por estar fazendo isso em uma situação onde comparado a grande parte das garotas da minha idade, sou privilegiada – afinal, faço o que eu amo e consigo pagar todas as minhas contas no fim do mês.

Bom, as semanas foram passando, e a correria típica de cidade grande ocupando meus dias. Decorei meu quarto novo. Entrei em alguns cursos – incluindo o de húngaro, que eu tanto queria fazer. Saí com o pessoal. Conheci pessoas que até então não passavam de arrobas. Não aprendi a cozinhar direito, mas descobri o quanto a parte de congelados do supermercado é deliciosa. Mudei a minha noção de distância – perto e longe.

IMG_9348

Por hora não quero pensar nas escolhas que não fiz. Deixo para o próximo mês a tarefa de parar de criar rituais de sofrimento (em outras palavras, stalkear). Parar de ir na Zara toda semana, confiar tanto nas pessoas interesseiras, e por fim, levantar da cama mesmo nos 6°C que tá fazendo e ir caminhar (de preferência não usando o google maps), sem inventar desculpas esfarrapadas.

1° de setembro – Que os jogos comecem

21694491281_f43303c317_o
Lógyógyászati Tanszék és Klinika

As duas primeiras semanas na Hungria foram bem de boa, colônia de férias, conhecer as pessoas e os lugares. E quando digo conhecer falo desde mapear as prateleiras do supermercado, descobrir qual o mais barato pra cada item, os pubs, boates e blábláblá. Na terceira semana começaram as aulas, e aí teve mais novidade.

Minha primeira experiência na Faculdade de Ciências veterinárias da Szent István Egyetem foi bem marcante. Primeiro porque me apaixonei perdidamente pelo campus, que é lindo. Talvez o fato de termos um campus exclusivamente da veterinária, o que foge da minha realidade na minha universidade do Brasil, tenha contribuído.

Fomos convidados para a cerimônia de abertura do ano acadêmico, onde os alunos e familiares se encontram com professores e outros representantes da universidade, que realizam uma série de discursos e informativos sobre o semestre que está para começar. Fiquei encantada e emocionada com os relatos de professores antigos da universidade, alguns já aposentados, outros não. Aquela excitação sem igual de quando ouve em outra pessoa o amor que você sente por aquilo que você escolheu fazer pelo resto da vida, e sentir finalmente valorizada. Tão bom ouvir e sentir que a profissão que você tanto ama também é amada e respeitada por tantas outras pessoas, e levada tão a sério!

21672974509_c79e7cbda1_o
SZIE

Destaque para as minhas aulas práticas no hospital veterinário de grandes animais da universidade (Lógyógyászati Tanszék és Klinika), que fica em uma cidade bem próxima a Budapeste chamada Üllő. As aulas lá são sensacionais, onde a gente coloca mesmo a “mão na massa”. Uma coisa que eu gostei muito na Szent István University é que o ensino é muito prático, desde o começo do curso. Uma grande vantagem, na minha humilde opinião. Logo na primeira aula prática de cirurgia sedamos um cavalo (lindo, por sinal. Os cavalos daqui são super bem tratados) para colocarmos em prática a aula de odontologia equina. Nem preciso dizer que saí da aula completamente nas nuvens!

21616881591_2a50e94a8c_o
Aula de cirurgia
21616867791_18024eb8e1_o
Odontologia equina
IMG_7926
Obstetrícia e reprodução
21446134960_b34312702d_o
Fazendo novos amigos 😍

Deu pra perceber o quanto eu amei esse lugar? Que eu consiga extrair o máximo que eu puder dessa universidade maravilhosa, que respeita e ama tanto a Medicina veterinária!!! Que seja um ano de MUITO aprendizado!!!

Buda e Peste: Love at first sight

13 de agosto, primeira noite em Budapeste. Expectativas a mil. Minha cabeça, como sempre, com suas engenhocas incessantes parece querer me fazer fraquejar de medo e receio. Travo uma batalha interna e me recuso. Afinal, o quanto eu lutei pra estar aqui? Quantas noites sem dormir, por buscar forças que me impedissem de desistir. Não era isso que eu queria? Perdi a conta de quantos “tapas mentais” me dei por simplesmente cogitar que fiz a escolha errada.

Minha primeira noite não foi lá das melhores. Tinha tudo pra dar errado e me causar uma péssima primeira impressão de Budapeste. Mas não deu. Budapeste (na verdade Buda e Peste, divididas pelo Danúbio) é simplesmente maravilhosa.

Chegando no hostel reservado pra 5 dias, desagradável surpresa: uma espelunca. E o tal do idioma que eu sonhava aprender, começou a se tornar uma espécie de pesadelo quando a minha única opção foi tentar me comunicar com o estranho senhor da recepção através do Google tradutor. Aí tive a ideia mais sensata que me ocorreu: cancelei toda a reserva e avisei minha família que tudo ia bem – o que não era totalmente mentira. Assim que acordei na manhã seguinte, fui pra casa de uns amigos brasileiros (aos quais vou ser eternamente grata), onde fiquei até encontrar um cantinho pra chamar de meu.

Problemas resolvidos, bora aproveitar o que Peste tinha de melhor. Os lugares mais legais não são necessariamente próximos, mas o sistema de transporte público da cidade funciona muito bem e integra metrô, trem e ônibus.

A minha primeira semana já começou com o Sziget – considerado o maior festival de música da europa, ganhador do prêmio Best Major European Festival 2014 -. Acontece uma vez ao ano aqui em Budapeste na ilha Óbuda, no rio Danúbio, sempre em agosto. Esse ano, o festival contou com shows que foram de Avicii a Kings of Leon (o grande responsável por eu ter comprado o ingresso, confesso).

21543524956_6bae07364f_o.jpg

Nosso Sziget, por Carol Davin 💃❤

Depois da intensa primeira semana preenchida pelo Sziget, tinha chegado a hora de começar a conhecer pessoalmente tudo aquilo que eu só tinha visto por fotos. E o que eu menos esperava aconteceu: Consegui me apaixonar ainda mais por Budapeste.

Pra começar, um dia inteiro pra vasculhar o centro de Peste. Dá aquela sensação de estar vivo e de que tudo aquilo está vivo também. Aproveitei pra ver o Parlamento, a Praça dos Heróis, a Basílica de São Estevão, uma espiada no Danúbio, a famosa Ponte das Correntes – ponte que liga Peste a Buda -, a Citadella – lugar perfeito para uma vista panorâmica maravilhosa da cidade – e o charmoso Castelo de Vajdahunyad.

20951026484_cc32dee3ef_o
Parlamento húngaro
IMG_7637
Danúbio
21385117488_ea7f8df4d7_o.jpg
Praça dos Heróis
20949115683_7c66a66b2d_o.jpg
Basílica de São Estevão
21547313096_f491647ef4_o
Ponte das Correntes
21581075969_9fd80fb1d2_o.jpg
Citadella
22081992162_12396b1633_o.jpg
Castelo de Vajdahunyad

Acho que depois de tudo isso, pelo menos um dia tem que ser deixado pra conhecer Buda. Bem, Buda não é nenhuma badalação ou centro comercial como Peste. É aí que está a graça. Buda é histórica e meio medieval. É única e encantadora. Tão diferente e tão próxima de sua irmã Peste. A entrada em Buda foi pelo metrô, mas fiz questão de desbravar a pé. São inúmeros os pontos turísticos pelo caminho. Mirantes maravilhosos, lojinhas de souvenirs, a Igreja Matthias, o Bastião dos Pescadores e finalmente o incrível Castelo de Buda (sim, aquele do clipe da Katy Perry).

21797121343_de2bdc28db_o
Igreja Matthias
22404289532_4afc8dc504_o
Castelo de Buda
1
Bastião dos Pescadores

Agora falando de nightlife, a vida noturna de Peste exige ser desbravada, independente do dia da semana que for. Destaque para os “Ruin pubs” (pubs em ruínas),  que são um dos principais motivos da capital da Hungria ser um dos meus lugares favoritos. Não são bares comuns que você encontra em qualquer esquina. São lugares cheios de história e cultura.

Tudo teve origem na  Segunda Guerra Mundial, quando foi construído o distrito judeu de Budapeste, gueto onde vivia parte população judia que não havia sido mandada para campos de concentração. Mesmo com o fim da guerra, o distrito não teve muita atenção ou investimento do governo: as casas abandonadas e em mal estado acabaram sendo usadas para realocar a população romana desabrigada da cidade.

Já no nosso século, em 2001, o lugar passou a receber eventos culturais pontuais nos prédios abandonados e em ruínas. Esse foi o pontapé inicial para o surgimento dos pubs em ruínas. Mas, enfim, o que tem de tão diferente em tais bares? Chamados literalmente de “bares ruínas”, em húngaro “romkocsma”, são bares cujos prédios estavam em estado decadente e que são decorados com o que estava lá dentro: itens abandonados e móveis vintage, sendo que a disposição de tais objetos nem sempre faz sentido.

Além disso, os romkocsma também transformaram o cenário do distrito judeu, uma vez que a partir de sua popularidade foram surgindo gradualmente outros bares, cafés, restaurantes, confeitarias, boutiques e, claro, vários pubs em ruínas. Atualmente, o  bairro é descolado, “trendy”, e cheio de gente nas ruas a qualquer hora.

O primeiro bar desse tipo a abrir em Budapeste foi o Szimpla, localizado em uma das principais ruas do distrito judeu, que em qualquer horário é super movimentada. Aberto todos os dias da semana, de meio-dia até as três da manhã, está sempre cheio de gente, principalmente turistas, exprime o “tipo ideal” de ruin pub e tem uma área aberta com mesas bizarras de madeira, bar de vinhos, banheiras e filmes projetados na parede. O bar é tão grande que eu sempre ficava perdida ao mudar de uma área para outra. Semanalmente, eles oferecem eventos culturais relacionados a temas variados, como música, cinema, culinária, dentre outros.

Um-dos-bares-do-Szimpla-pub-ruína
Um dos bares do Szimpla

Uma-das-áreas-internas-do-Szimpla-I

Fachada-do-Szimpla-pub-ruína
Fachada do Szimpla

Outra coisa imperdível para quem colocar os dois pés em território húngaro é experimentar a tradicional Pálinka, bebida forte idolatrada por húngaros de todas as classes sociais. Minha primeira experiência com a Pálinka foi complicada. Acabei pegando a dose dupla (só notei na hora de pagar) e, fraca como sou, achei horrível. Depois provei de novo e acabei gostando. Destaque para a Pálinka de maçã e de pêssego.

21544345836_16b6174661_o.jpg
Pálinka

Acho que deu pra sentir pelo meu texto que Budapeste foi paixão à primeira vista. Que vai aumentando e se concretizando a cada dia que se inicia, sempre me levando a uma história nova pra conhecer, um monumento incrível a me deparar ou um caminho diferente pra percorrer, me conquistando cada vez mais. Truque de Budapeste para me seduzir, tenho certeza.