Capítulo 24

Budapest, march 20, 2016

Mais um capítulo se inicia, e dessa vez nesse lugar maravilhoso e rodeada de pessoas maravilhosas!

Feliz ano novo pra mim!!! 🎉🎉🎉🎉🎉🎉

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Reflexões de metade do intercâmbio: Você realmente sabe o que é e representa?

E lá se foram 6 meses.

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Esse é o texto que eu mais queria escrever desde o meu primeiro mês aqui. (Detalhe, quando comecei essa frase comecei em inglês involuntariamente. Ótima evolução na língua até o momento… Quando mistura com húngaro então, fica uma coisa linda! Hahaha).

Você sabe o que é e representa no mundo? A ideia de ser um em sete bilhões é tão vaga, e se você não possuir um dom único, é representado por sua nação. Falando em nação, já pararam pra prestar atenção no hino do nosso país? “Terra adorada… Entre outras mil, és tu Brasil, Ó Pátria amada!” Mas como? Reclamamos de tudo, somos os piores do mundo, a grama do vizinho é sempre mais verde e blá blá blá…

Os europeus são bem mais fechados e à primeira vista rudes, pra nós brasileiros. Porém depois que você faz amizade o cenário muda muito. Muitas das vezes são até mais solícitos que brasileiros. Espanhóis e italianos são os que mais lembram a nossa cultura.
Europeus são mais práticos, diretos e pontuais. Já nós somos mais flexíveis. Ambos lados tem pontos positivos e negativos.
Não fazem tantos rodeios também. Se não querem dizem que não e se querem, sim. Nós em geral optamos pelo “talvez”, “não sei” ou o “vou pensar”.

Aqui se pode assoar o nariz em qualquer lugar. QUALQUER LUGAR mesmo! Na mesa de jantar, numa cerimônia solene na universidade ou numa sala de aula silenciosa (And I think that’s beautiful ❤). Aquele som alto não incomoda ninguém. Já por outro lado é rude ficar “fungando” o nariz, alguns ficam até bem irritados. Pra quem tem rinite alérgica como eu é simplesmente maravilhoso. Acho que o sentimento que tive quando descobri isso foi como o das mulheres da década de 70 nos EUA que queimaram sutiãs… Livre! Livre! Hahaha

Budapeste, capital da Hungria e uma das cidades mais visitadas do Leste Europeu, tanto por jovens que buscam conhecer a cidade e sua noite como por pessoas mais velhas que vêm apenas para aproveitar os “Sightseeings” e também os restaurantes e pubs maravilhosos. Nesses 6 meses tive a oportunidade de encontrar e conversar com pessoas dos mais variados cantos do mundo, e com o auxílio da universal língua inglesa conheci muitas histórias e sotaques diferentes. É fascinante!

Geralmente, essas conversas começam com um Oi, tudo bem, por que está por aqui, etc… Mas uma das primeiras perguntas, de lei, sempre é: “Where are you from?” . O melhor dessa pergunta, é que você já anseia que a pessoa pergunte um “And you?” para poder falar com aquele sorriso na cara: Brasil! E a reação é unânime ao ouvir essa palavra mágica; Sorrisos seguidos de “Woowwww Brazil!!!!!!!” e alguns comentários ou encenações depois. Uns cantam Ai se eu te pego, outros Gustavo Lima, muitos falam de Ronaldo, Ronaldinho e Neymar, e os mais informados perguntam sobre os atuais problemas políticos. E claro, todo mundo deseja passar um carnaval na nossa terra!

Aí é que se encontra o X da questão: Independente da conduta de nossos políticos, do amadorismo que comanda boa parte das coisas, temos o bem mais valioso do mundo: O povo. Sim, acho que somos os mais amados do mundo, e abaixo conto o porque de chegar a essa conclusão em tão pouco tempo.

Sinceramente, eu sei que ainda terei contato com muitas outras nacionalidades e com todo tipo de pessoa, mas já estou assimilando a mensagem deles: Somos o povo mais feliz, divertido, admirado em alguns pontos e sempre tentamos ver o lado positivo de tudo. Após perceber isso, é impossível não colocar um sorriso no rosto e ter o maior orgulho do mundo de falar que venho do Brasil.

Brasileiros no geral sofrem da “síndrome do patinho feio” em que tudo que é de fora é melhor. Nosso país é um continente que fala a mesma língua, com tanta riqueza cultural, belezas naturais e um povo acolhedor! 💚💛
Temos problemas? Claro! Contudo devemos lutar para melhorar (e justificar crise pra tudo não vale).

– Szia!

O alto preço de viver longe de casa

“Voar: a eterna inveja e frustração que o homem carrega no peito a cada vez que vê um pássaro no céu. Aprendemos a fazer um milhão de coisas, mas voar… Voar a vida não deixou. Talvez por saber que nós, humanos, aprendemos a pertencer demais aos lugares e às pessoas. E que, neste caso, poder voar nos causaria crises difíceis de suportar, entre a tentação de ir e a necessidade de ficar.

A vida de quem inventa de voar é paradoxal, todo dia. É o peito eternamente divido. É chorar porque queria estar lá, sem deixar de querer estar aqui. É ver o céu e o inferno na partida, o pesadelo e o sonho na permanência. É se orgulhar da escolha que te ofereceu mil tesouros e se odiar pela mesma escolha que te subtraiu outras mil pedras preciosas.

E começamos a viver um roteiro clássico: deitar na cama, pensar nos quilômetros de distância, pensar nas pessoas amadas, no que eles estão fazendo sem você, nos risos que você não riu, nos perrengues que você não estava lá para ajudar. É tentar, sem sucesso, conter um chorinho de canto e suspirar sabendo que é o único responsável pela própria escolha. No dia seguinte, ao acordar, já está tudo bem, a vida escolhida volta a fazer sentido. Mas você sabe que outras noites dessas virão.

Mas será que a gente aprende? A ficar doente sem colo, a sentir o cheiro da comida com os olhos, a transformar apartamentos vazios na nossa casa, transformar colegas em amigos, dores em resistência, saudades cortantes em faltas corriqueiras?

Será que a gente aprende? A ser filho de longe, a amar via Skype, a ver crianças crescerem por vídeos, a fingir que a mesa do bar pode ser substituída pelo grupo do WhatsApp, a ser amigo através de caracteres e não de abraços, a rir alto com HAHAHAHA, a engolir o choro e tocar em frente?

O preço é alto. A gente se questiona, a gente se culpa, a gente se angustia. Mas o destino, a vida e o peito às vezes pedem que a gente embarque. Alguns não vão. Mas nós, que fomos, viemos e iremos, não estamos livres do medo e de tantas fraquezas. Mas estamos para sempre livres do medo de nunca termos tentado.” – Ruth Manus

Aos amigos que viraram família e fizeram desse fim de ano inesquecível e aconchegante: O meu eterno obrigada.

Boldog Új Évet!!!

Sobre versos, palavras e saudade

Como pode uma simples mensagem transformar e salvar um domingo cinza de 4°C?
Como pode essa saudade doer tanto?

“The answer, my friend, is blowin’ in the wind…..”

Oi Ju. Recebemos seus presentes, seu cartão. Saudades, saudades e saudades. Mas, é gratificante, porque é por uma grande causa, “Você”.

Neste instante, estou ouvindo Bob Dylan, um presentão, talvez eu não consiga te explicar, mas, coisas simples, desejos que quando menos espero, acontecem.

Simples. Como ouvir Dylan como faço agora. Quando eu o ouvi pela primeira vez, não me lembro quando, ouvi e gostei. Prendeu minha atenção, porque mesmo sem entender a letra, tive e tenho a sensação que ele canta conversando com quem o ouve. Mas o interessante, é que nunca comprei nenhum disco ou cd, mesmo gostando. Por que? Assim, mais um desejo se realiza através de você.

Só musicão, um som nítido, sua gaita complementa um som de cativar.
Obrigado por ter lembrado, posso entender agora porque não comprei. Ouvindo, te escrevendo e feliz pelo presente, mais um desejo realizado.
Beijos, com muito amor, fique com Deus.

Acabei de chegar em casa, e me senti muito importante recebendo encomenda de Budapeste, Berlim e Viena. Adorei meus presentes. Os ímãs de geladeira são uma graça, a loção é cheirosa e o hidratante uma delícia.

Mas, receber um cartão escrito por você eu gostei  por demais. Também te amo muito e me sinto viajando com você pelos seus relatos, mesmo não estando aí.
Fica com Deus, filha.

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Às duas pessoas mais importantes da minha vida…
Amo vocês. Demais.


2 down, 10 to go!

Hoje, quando olhei no calendário, me dei conta que já fazem dois meses que me mudei para Budapeste, e se tem uma coisa que eu posso dizer é: Como passou rápido!!!

Agora posso dizer que aquela típica sensação de que tudo isso vai acabar em alguns dias, assim como aquela sensação de “férias” já está passando, e ficando no lugar algo que ainda não sei descrever – completamente. Como se o sentimento estivesse dentro de mim, embrulhadinho em um papel de presente e ainda com um cartão branco escrito “Seu maior sonho”.

Falando assim parece idiotice, mas abrir esse pacote não é tão simples quanto parece. Significa que de alguma forma (e para o meu bem), terei que me desfazer por completo de outros.  No começo tentei não pensar nisso. E principalmente, não escrever sobre isso. Uma maneira que encontrei de me defender dos meus próprios julgamentos – já que eles sempre surgem quando tento transformar o que sinto em textos. Mas quando se tem dificuldade de expor o que sente em palavras ditas, trancar a inspiração não é algo muito saudável. Talvez seja esse o preço que se paga.

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Pois bem, agora estou pronta pra falar – ou pelo menos tentar – escrever sobre isso.

Morar longe de onde nascemos e crescemos (e também de quem amamos) talvez seja um dos maiores desafios da vida. Daqueles que fazem a gente mudar completamente os valores. Ainda é a melhor e mais rápida maneira de amadurecer: Amar, esquecer e crescer.

De uma hora pra outra as coisas que você mais odiava se transformarão nas coisas que você mais sente falta. E as coisas que você sempre teve vontade de fazer, em menos de uma ou duas semanas (em alguns casos meses, vai…), se transformarão em rotina e perderão 80% da graça. Mas ainda assim vale a pena. Mudar é sempre um investimento; seja pra conquistar, encontrar ou compartilhar um sonho.

É quase sempre na solidão que conseguimos sentir nossa verdadeira alma e essência. Isso é meio louco. Porque em alguns momentos achamos que estamos pirando. Não ouvir aquela voz que acalma quando tudo está dando errado. Olhar pro lado e perceber que aquela multidão não passa de um bando de pessoas que não fazem ideia de quem é você.

No começo foi assim, me senti absolutamente sozinha. Chorei algumas vezes no chuveiro e desejei ter algum tipo de poder que tornaria possível trazer todas as pessoas que eu amo pra perto. (Ganhar na loteria também vale). Mas não dá pra cobrar isso da vida. Ela já tem sido tão gentil comigo ultimamente. Sinto até um aperto no peito quando fico triste por saudade. Metade por estar chorando. Outra metade por estar fazendo isso em uma situação onde comparado a grande parte das garotas da minha idade, sou privilegiada – afinal, faço o que eu amo e consigo pagar todas as minhas contas no fim do mês.

Bom, as semanas foram passando, e a correria típica de cidade grande ocupando meus dias. Decorei meu quarto novo. Entrei em alguns cursos – incluindo o de húngaro, que eu tanto queria fazer. Saí com o pessoal. Conheci pessoas que até então não passavam de arrobas. Não aprendi a cozinhar direito, mas descobri o quanto a parte de congelados do supermercado é deliciosa. Mudei a minha noção de distância – perto e longe.

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Por hora não quero pensar nas escolhas que não fiz. Deixo para o próximo mês a tarefa de parar de criar rituais de sofrimento (em outras palavras, stalkear). Parar de ir na Zara toda semana, confiar tanto nas pessoas interesseiras, e por fim, levantar da cama mesmo nos 6°C que tá fazendo e ir caminhar (de preferência não usando o google maps), sem inventar desculpas esfarrapadas.

Começo

Esse é o diário de viagem de uma intercambista do Ciência Sem Fronteiras. Espero que tirem algum proveito das minhas histórias (todas reais) e que se inspirem um pouco nessa maravilha que é viajar.

O começo de tudo isso foi em Agosto de 2014. Fazer um intercâmbio sempre foi um sonho, que parecia distante. Foi minha professora de inglês que botou aquela pressão pra que eu fizesse logo a tal inscrição pro programa. Bem, resolvi fazer. No fim não tinha nada a perder, tinha?

No meio de vários países diferentes, algo na Hungria me chamou atenção. Por quê? Não sei. Tinha que ser Europa. Tinha que ser algo diferente. Acabou que o edital aceitava apenas domínio do idioma inglês e eu, toda boba, achei que ia ser uma chance de aprender um idioma novo (e que idioma, diga-se de passagem).

Certa vez, em uma das minhas milhares de visitas ao Google pra descobrir um pouco mais sobre a Hungria, me deparei com o livro “Budapeste”, de Chico Buarque. Era como se ele, o autor, me conhecesse e soubesse que eu iria passar por aquele sobressalto de querer aprender, sem razão e quase de forma obsessiva, aquela que “segundo as más-línguas, é a única língua do mundo que o diabo respeita”. Aquele arranque do livro era eu naquele momento a querer desbravar uma língua nova apenas porque me apaixonei pela sua sonoridade. E quando mais ninguém compreendia, Chico Buarque de Hollanda sabia, conhecia, e soube descrever a minha angústia. É o feitiço da língua húngara.

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Sem a mínima noção do aspecto, da estrutura, do corpo, mesmo das palavras, eu não tinha como saber onde cada palavra começava e até onde ia. Era impossível destacar uma palavra da outra, seria como pretender cortar um rio com uma faca. Aos meus ouvidos, o húngaro poderia ser mesmo uma língua sem emendas, não constituída de palavras, mas que se desse a conhecer só por inteiro.

A inscrição deu algum trabalho, as burocracias encheram o saco e o que eu menos esperava aconteceu: Passei. Estou aqui, na Hungria, há exatos 1 mês e 24 dias, matriculada na Szent István University pra cursar um ano de Medicina Veterinária. E é esse o relato que vou contando, aos poucos, pra vocês.

Tirem seus sapatos, fiquem confortáveis e venham desbravar a Europa (quem sabe o mundo!) comigo.