Outono em Praga

Uma das experiências positivas mais marcantes ao se mudar e viver na Europa é a mudança de estação.  O frio parece ter chegado pra valer. E o tempo está muito úmido.

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A sensação de mudança na natureza traz poesia, carrega a metáfora da transformação e da passagem, e para isso a natureza é mestra. E quando eu digo que as estações constroem os alicerces de experiências fantásticas, é porque dela não se ouve voz de burrices, sendo tão simples, comum e tão fácil de presenciar.

Quando o outono chega os parques ficam realmente lindos, a tonalidade de amarelo-marrom-dourado cria uma atmosfera mágica, e quem tem sensibilidade não sai ileso desta beleza.

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Fomos de ônibus pra República Tcheca, pela empresa Student Agency. Não conhecia ainda, e me surpeendi com o atendimento! Ônibus confortável, com Wi-Fi e….. chocolate quente de graça! Muito amor.

Cheguei em Praga dia 30 de outubro já de noitinha, e demos a sorte do nosso hostel ficar ao lado de um restaurante  ótimo chamado Lior, onde quase choramos de alegria ao saber que a cozinha ainda estava aberta. Gordos.
Comecei bem, com uma carne típica maravilhosa e com uma cerveja tradicional tcheca!

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No dia seguinte, de manhã cedo, iríamos visitar o famoso Castelo de Praga e depois a tão esperada por mim John lennon Wall. Já à tarde decidimos, mais uma vez, entrar no esquema do “Free Walking Tour“, que nunca decepciona! Já falei dele por aqui, mas é sempre bom lembrar. Você escolhe em que língua quer seu guia (a maioria é em inglês, mas também quase sempre tem em espanhol) e no local e hora marcados você se junta ao grupo. A ideia é caminhar pela cidade à pé, onde o guia apresentará os principais pontos da cidade, assim como a história do lugar. O passeio é tranquilo, tem várias paradas e você nem nota o tempo passar. Ao final, você dá aquilo que acha justo, inclusive podendo não pagar nada, se não tiver gostado da caminhada. Como eles dizem: We work for tips!

Como em todas as cidades que já visitei na Europa, o transporte público é facilmente acessível e funciona muito bem! Rapidamente chegamos ao Castelo, apesar de um breve momento em que ficamos perdidos (não pode deixar de acontecer em uma viagem, rs). E não posso deixar de citar a simpatia dos tchecos! Ô povo fofo e simpático! – E quase todo mundo fala inglês, glória! –

Vista da maravilhosa Praga, de cima do castelo
Vista da maravilhosa Praga, de cima do castelo
Catedral de São Vito
Catedral de São Vito
Unidos por uma passagem barata ❤
Unidos por uma passagem barata ❤
Mantendo a segurança da cidade
Mantendo a segurança da cidade

Depois da visita ao Castelo, seguimos pra John Lennon Wall, e passamos por um dos maiores símbolos e um dos principais cartões postais de Praga. A Charles Bridge é uma ponte secular – construída em 1357. Com seus 515 metros de comprimento e 10 de largura, ela foi a única ponte de Praga até o ano de 1841.

Charles Bridge
Charles Bridge

A John Lennon Wall não fica longe, e qualquer um que você pergunte na rua sabe te explicar o caminho. Não posso negar que era o que eu mais estava ansiosa pra conhecer em Praga. Sempre achei linda e nunca poderia imaginar que um dia ali estaria eu, em frente a um monumento tão lindo e importante.

Numa parte nobre de Praga, bem pertinho da ponte que é o maior cartão postal da cidade, a Charles Bridge, fica um muro todo grafitado e colorido que contrasta drasticamente com o estilo do centro histórico: a John Lennon Wall. O primeiro desenho naquela parede surgiu no início da década de 80, quando o comunismo soviético já estava bastante desgastado na antiga Tchecoslováquia e o mundo estava comovido com a morte de John Lennon. Era uma imagem do Beatle-ícone-hippie, o que a polícia comunista logo entendeu como uma forma de protesto e vandalismo. Em pouco tempo o desenho já estava coberto de tinta cinza.

John Lennon Wall
John Lennon Wall

O que a polícia não esperava era que outras pessoas começassem a ir lá e pintar o retrato dele de novo. A cada vez que o governo mandava limpar o muro, um novo desenho de Lennon voltava a aparecer. Artista, hippie, ícone da paz, ele simbolizava a liberdade de expressão que os tchecos há mais de 30 anos já não tinham.

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E logo começaram a se acumular mensagens de resistência ao regime, palavras de paz e esperança. No fim daquela década, quando o Muro de Berlim caiu, em 1989, a República Tcheca teve o fim da ditadura comunista também, mas a Lennon Wall continuou. Mais de 30 anos depois, aquela parede rabiscada ainda está lá, não só como um memorial ao Beatle e seus ideais de paz, mas também como uma manifestação pela liberdade de expressão.

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Como está aberta a intervenções, a Lennon Wall nunca é a mesma em duas fotos – há sempre novas pinturas e rabiscos surgindo na parede. Mas entre vários recadinhos de “Fulano esteve aqui” (daqueles que também aparecem o tempo todo no Muro de Berlim) ainda se vê o rosto de John Lennon em algum canto. (Obviamente tive que deixar a minha marquinha, apesar de ter esquecido de levar uma caneta apropriada). E continua sendo engraçado ver trechos das músicas dos Beatles pintados em cores tão contrastantes com a arquitetura clássica de Praga.

Chegar na Lennon Wall não é difícil: Você cruza a Charles Bridge, em direção ao Castelo de Praga, e depois vira à esquerda na rua Lázeňská. Daí você segue por 2 minutinhos, até chegar na Velkopřevorské náměstí (Grand Priory Square). Se quiser uma referência, o muro fica em frente à sede da Embaixada da França.

John Lennon Pub, restaurante/pub temático que fica a poucos metros do muro
John Lennon Pub, restaurante/pub temático que fica a poucos metros do muro

Almoçamos e fomos correndo ao ponto de encontro do Free Walking Tour. Começamos pelo famoso relógio medieval astronômico (e astrológico!) – Orloj.

Orj
Orloj

Em cima do relógio, tem duas janelinhas onde, em determinadas horas do dia, passam os 12 apóstolos. Então, se você notar uma certa aglomeração de pessoas, tenha certeza que logo logo os bonecos irão sair pra fazer seu showzinho.

Passamos pelas cinco áreas principais da cidade: Cidade Velha (Staré Mesto), Cidade Nova (Nové Mesto), Bairro Judeu (Josefov) e Malá Strana. Todas elas podem ser exploradas a pé. Pela história de Praga entende-se que quatro delas – a Cidade Velha, a Nova, Malá Strana e Castelo de Praga – eram pequenas cidades independentes e que foram unificadas em 1748 formando com o Bairro Judeu o que hoje chamamos de Praga.

Num resumo à moda do City tour, tem-se:

Cidade Velha: É o coração da cidade. Seu ponto principal é a Praça da Cidade Velha (Staromestské námestí), a partir de onde foram construídas casas e igrejas, criando um labirinto de ruas estreitas e tortuosas. Há muitas lojas de souvenirs e restaurantes. (E onde fica o relógio astronômico).

Malá Strana: É o lugar mais charmoso da cidade. Fica logo abaixo da colina onde foi construído o Castelo de Praga e hoje abriga a maioria das embaixadas de outros países na República Tcheca. Tem restaurantes descolados, lojinhas mais “cult” e ruelas agradáveis.

Bairro Judeu: Emblemático, como o próprio nome diz. Confesso que estranho um pouco manterem o nome assim, em tempos em que o politicamente correto é não segregar nada nem ninguém. Mas acredito que seja só por questões turísticas, pois o nome em tcheco é Josefov, em homenagem ao Imperador José II que combateu a discriminação, em 1784 (!). Isso mesmo! Ao contrário do que se possa pensar, o bairro não foi separado pelos nazistas. Na Idade Média eles já eram discriminados, sendo constantemente massacrados. Pouca coisa restou dessa época, pois os antigos cortiços do gueto judeu foram demolidos no início do século XX, por questões sanitárias. Restaram algumas relíquias como sinagogas e o cemitério judaico, atrações turísticas de primeira linha.

E esse foi o city tour. Sempre saio desses city tours com a sede de viajar mais! Como é bom conhecer todos esses lugares e suas histórias incríveis…

Mas o dia não acabou. À noite fomos a um restaurante medieval chamado Středověká krčma (Taberna medieval em tcheco). Que lugar incrível! O restaurante possui um ambiente em estilo medieval, apertado, escuro e com garçons que contribuem para criar o clima de taberna. Quando você terminar a sua primeira cerveja, os shows que te levam à era medieval começam. Fora a comida. Pedimos um prato que vinha com costelas (gigantes) de porco, sonho com elas até hoje. Maravilhosas! E a sua única opção é comer com a mão. Melhor impossível.

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No dia seguinte, fomos a uma cidadezinha bem próxima a Praga chamada Kutná Hora, onde se localiza o famoso Ossuário de Sedlec. A Capela dos ossos, como também é conhecida, é artisticamente decorada por mais de 40.000 esqueletos humanos.

Repare no grande lustre de ossos que fica no centro desta capela: o imenso lustre contém todos os ossos do corpo humano.

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Outra obra de arte impressionante é o brasão de armas da família Schwarzenberg, que também é feito de ossos humanos. Os Schwarzenbergs eram membros proeminentes da nobreza da Boêmia e alcançaram o posto de Príncipes do Sacro Império Romano.

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Brasão da família Schwarzenberg

Conta a história que em 1278 o Rei da Boêmia enviou o abade do mosteiro Cisterciens de Sedleč para Jerusalém.

Quando o abade voltou, ele trouxe consigo um frasco do solo de Gólgota, que era conhecido como o “Solo Sagrado”.

Logo as pessoas de todo os lugares desejavam ser enterradas em Sedleč, assim, o cemitério tinha que ser ampliado.
No século XV a capela gótica foi construída do lado do cemitério e seu porão foi utilizado como um ossário.

Os ossos ficaram por lá por séculos, até 1870, quando um entalhador chamado František Rint foi nomeado para colocar os ossos em ordem.

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Ossos artisticamente posicionados

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Além do ossuário, visitamos também a Igreja de Santa Bárbara (Chrám svaté Barbory), uma das igrejas góticas mais famosas da Europa Central, também tombada como Patrimônio Mundial da Humanidade pela UNESCO.

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Igreja de Santa Bárbara

Dali, caminhamos mais um pouquinho e paramos para um almoço no V Ruthardce, um restaurante muito bacana onde experimentei um prato típico tcheco que tinha um item famoso da cozinha tcheca, o Svickova.
É talvez o molho mais típico para a cozinha tcheca: Molho de natas com lombo. Preparar um bom molho de natas é o desafio até para um cozinheiro experiente. O prato é servido com bolos de massa levedada (knedliky), e mirtilo vermelho.

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Sem a menor dúvida, Praga é uma das cidades mais lindas em que já pisei! Voltei com fotos lindas (muito embora continue acreditando que nem a melhor delas refletiu exatamente a beleza da cidade), e cada vez que revejo as imagens, acabo suspirando! Suspiro com saudade, suspiro de felicidade, suspiro por pensar “Que sorte, já fui ali!”. E por fim, solto um suspiro esperançoso, de “Aaaaaah, mas uma dia eu volto!”…

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Um comentário sobre “Outono em Praga

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