23 de outubro na Hungria de 2015

Em outubro de 1956, os húngaros protagonizaram um dos mais importantes movimentos da História contra o comunismo. Cansada do regime autoritário, a população saiu às ruas para reivindicar menos stalinismo e mais democracia, estimulada pelo ataque do secretário-geral Nikita Kruchov ao governo de Stálin.

22428746912_7af3fe17e8_oA revolução propriamente dita teve inicio no dia 23 de Outubro de 1956, com uma manifestação pacífica de estudantes em Budapeste. Exigiam o fim da ocupação soviética e a implantação do “socialismo verdadeiro”. Tanques soviéticos foram apedrejados e símbolos como a estrela vermelha no prédio do Parlamento, em Budapeste, substituídos pela bandeira da Hungria. Em pouco tempo, as tropas húngaras aderiram. Quando os estudantes tentaram resgatar alguns colegas que haviam sido presos pela polícia política, esta abriu fogo contra a multidão.

No dia seguinte, oficiais e soldados juntaram-se aos estudantes nas ruas da capital. A estátua de Stálin foi derrubada por manifestantes que entoavam, “Russos, voltem para casa”, “Abaixo Gerő” e “Viva Nagy”.

No dia 25 de Outubro, tanques soviéticos dispararam contra manifestantes na Praça do Parlamento. Mais de 100 pessoas foram mortas! Chocado com tais acontecimentos, o comité central do partido forçou a renúncia de Gerő e substituiu-o por Imre Nagy.

A festa acabou quando Nagy anunciou seu desligamento do Pacto de Varsóvia, aliança militar comunista instituída um ano antes. Os tanques soviéticos cercaram Budapeste. Na madrugada de 5 de novembro, mil tanques, apoiados por artilharia, aviões e infantaria, entraram na capital, massacrando a população. Cerca de 8 mil pessoas morreram e 200 mil fugiram para o Ocidente. Nagy seria executado por traição dois anos depois.

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Em 1949, foi substituído o  tradicional Brasão da bandeira húngara por uma imagem do tipo estalinista, composta por uma espiga cruzada com martelo e uma estrela vermelha. A bandeira da revolução anti-soviética de 1956 foi a tricolor com um “rasgão” ao centro (não existindo outras bandeiras que não exibissem a imagem comunista ao centro, o recorte à tesoura levou ao aparecimento de bandeiras com um “buraco” ao centro, hoje símbolo da revolução).

Desde que o país voltou a ser independente da URSS, há 24 anos, o dia 23 de outubro foi decretado feriado nacional. Nem mesmo os mercados abrem, quase ninguém trabalha. As ruas se enchem de bandeiras nacionais e há festividades e manifestações durante o dia. Em 2006, quando um governo de esquerda estava no poder, houve fortes protestos na data por causa de declarações impopulares do presidente. Grupos nacionalistas e de direita ocasionaram fortes conflitos com a polícia e invasão de prédios públicos. Talvez por isso, recebi uma recomendação de uma professora de que era “melhor não sairmos de casa” (se ela quisesse me convencer a ir, não teria jeito melhor que esse).

Uma rápida pesquisa na internet e uma consulta aos amigos húngaros fornecem a programação do dia.

Em frente à Terror Háza (Casa do Terror), – pertinho da minha casa – que relembra o período da ocupação nazista e da ditadura soviética, centenas de húngaros acenderam velas para relembrar os mortos. A data era pra ser uma festividade, mas o luto estava presente lado a lado com o orgulho da Revolução que fracassou. Se por um lado o passado foi sombrio, o futuro tampouco parece animador para o povo húngaro.

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Casa do Terror, na avenida Andrássy
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Velas em homenagem às vítimas

A House of Terror, ou Terror Háza, em húgaro, é um museu que conta a história do nazismo e comunismo na Hungria e a casa foi, literalmente, uma Casa do Terror, já que abrigava os nazistas húngaros e depois foi sede do comunismo húngaro. O museu é impressionante e conta toda a história da ocupação nazista e depois, dos soviéticos. E vou tentar contar um pouquinho sobre a minha inesquecível experiência visitando o local e vivenciando essa história.

Na entrada, tem um memorial com uma parede meio preta e meio cinza, com uma faixa caída no chão com as cores da Hungria dentro de uma espécie de coroa de espinhos como a de Cristo. E já toca uma música de muito impacto e tensão.

Logo ao entrar, você se depara com um tanque real exposto,  juntamente com fotos de milhares de vítimas. Impactante.

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Depois, sobe para o segundo andar. Lá tem uma série sem fim de vídeos reais feitos na época, que estão intactos colocados para exibição. Tem muito material em húngaro e em menor grau em russo. E muito pouca coisa traduzida para o inglês. Mas acho que nem precisa.

Tem 500 uniformes do exército húngaro, tem até um vídeo mostrando como eles se vestiam.

E aí ao fundo tem uma parede que causa muito impacto, pra mim em particular. O momento que a primeira ponte aqui da Hungria afundou depois do ataque nazista. Tá lá bem ampliada. Ocupa uma parede inteira. É impressionante. Fiquei sem acreditar. Penso que a imagem reflete o sentimento de todos os húngaros quando passaram por isso. Choca e dói na alma.

Há diversos relatos do período em que o regime totalitário estava instalado na Hungria. Eles deixaram várias televisões com vídeos de depoimentos de quem sobreviveu. Mas nitidamente é um depoimento da década de 40 ou 50. Também tem à mostra os telefones pretos húngaros usados na época, as máquinas de escrever que passavam mensagem em código morse, fones de ouvido que você pode pegar para ouvir mais depoimentos e até um carro usado por algum governador da época. Um carro preto gigantesco. Também tem filmagem das pessoas fazendo trabalho escravo, de campos de concentração e das pessoas trabalhando pelas ruas daqui. Tem vídeo de quando o nazismo assume o poder, e de um cara que foi abraçar Hittler, mas, foi impedido pelos soldados.

Aos poucos vai se misturando nazismo e socialismo. E tem 500 milhões de depoimentos das atrocidades que eles faziam. De coisas mais leves até coisas bem pesadas. Tem as armas que eles usavam, remontaram o gabinete de 2 comunistas lá dentro, tem livros com anotações diversas, uma biblioteca de algum governante húngaro com uns 40 livros de Stalin e 30 de Marx, entre outros.

Ah sim! Tem um vídeo do exato momento que o governante húngaro passa o poder para o governo socialista.

A coisa parece ficar melhor quando entro numa área dedicada a propaganda socialista e parece que vai tudo ficar mais light. Só que piora muito!

Depois da sala de propaganda tem uma sala dos padres. Aí tem o vídeo de um cardeal que assumiu a Hungria, dizendo que não queria fazer mal a ninguém e nem ter distinção de classe social porque a família dele também vinha da classe trabalhadora húngara. Num determinado momento a guarda ali da sala manda a gente sair e entrar num elevador. Eu achei que era porque estava fechando. Engano meu.

Esse elevador deve funcionar a 2 km/h, e na hora que ele se fecha, começa um depoimento de um velhinho relatando com todos os detalhes possíveis como era o procedimento de tortura até o enforcamento de um preso. Isso vai angustiando profundamente em especial porque quando você se dá conta, o elevador está descendo os corredores da prisão húngara onde aconteceram os relatos dele. Você começa a identificar que é o lugar, e que a única opção é descer.

Quando finalmente para, a gente está dentro da prisão. E eles não reformaram a prisão. Deixaram do jeito que foi encontrada. Lá tem uma sala com instrumentos de tortura, câmara de gás, prisões diversas com a foto de quem ficou preso em cada cela, sala de enforcamento com a corda e o tronco ali ainda expostos, sala de tortura para arrancar depoimento com detector de mentira e uma cela mil vezes pior que as outras em que só era possível colocar o corpo de pé porque nem se mexer dava.  Não tem como não ficar mal. Eu vi pessoas chorando, pessoas se afastando pra ir embora e muitas pessoas com a cara péssima.

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Terror Háza

Pra piorar, um dos corredores da saída é um corredor enorme com a foto das vitimas, quando nasceu e se morreu, em um enorme paredão. Na próxima sala tem uma espécie de oratório com milhões de velas acessas e por fim uma sala com o levante húngaro da revolução e da resistência.

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“Cortina de Ferro” – Expressão usada para designar a divisão da Europa em duas partes, a Europa Oriental e a Europa Ocidental como áreas de influência político-econômica distintas, no pós-Segunda Guerra Mundial, conhecido como Guerra Fria.

Ao final de tudo, fiquei aliviada por sair do prédio e ver a luz do dia. Tentei me distrair fazendo uma caminhada pela Vörösmarty, tarefa um tanto difícil, em que falhei completamente.

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